Pequim, 25 de Outubro de 2007 - Modelo educacional chinês revela alguns dos segredos do forte crescimento da economia asiática. Lançar um satélite de sondagem no espaço, como a China fez ontem, exige um bom ponto de partida. Algumas vezes esses pontos não ficam muito visíveis. Por exemplo, vista de fora, a praça de esportes era completa: pista de corrida e várias quadras, ao redor de um belo gramado. Como não existiam grades nem muros, só um alambrado baixo, era possível acompanhar a ginástica das dez da manhã feita por alunos e professores da escola de Haidian, um bairro não industrial, a onze quilômetros do centro de Pequim. No final cantaram o hino nacional chinês. Lá, ninguém falava de satélites de sondagem, mas, como avisou Shi Xiú, coordenadora da escola, seria preciso esperar vinte minutos para conversar com o diretor. Nesse tempo formaram-se filas em três direções e o pátio ficou vazio.
Previsibilidade é, de fato, a palavra que melhor define a atual fase da educação chinesa. Basta entrar na escola para perceber os vínculos do ensino com o acelerado crescimento da economia chinesa. Desde os primeiros minutos da conversa, o diretor Dong Sui Dong falou em atender objetivos claros e resultados bem definidos. Por exemplo, há apenas quatro graus para diferenciar a nota dos alunos. O último deles, desempenho inferior a 60% do que foi ensinado, implica em sumária reprovação. Porém, nem o aluno, nem o professor são avaliados apenas pelos pontos quantitativos que alcançaram nas provas. O conjunto de atitudes de ambos, tanto de docentes como de discentes, também conta.
As aulas começam às oito e meia e vão até o meio dia. Recomeçam à uma e meia e vão até às cinco da tarde. Alunos que moram longe almoçam na escola, os demais vão para casa. O critério dessa divisão não é único, é caso a caso. Todo aluno tem uma ficha (eletrônica desde o começo deste ano) que relata seu dia-a-dia. Não existe mais estabilidade na educação chinesa, seja para quem for. Uma vez por ano há nova certificação de todos os professores, compreendendo testes de conteúdo da disciplina, situações de psicologia educacional e de gerência do processo de ensino. Dong explicou bem o que este último quer dizer: melhorar, ano a ano, a relação entre o que se planeja e o que se executa na sala de aula.
A educação chinesa começa aos três anos de idade e a primeira fase vai até os seis anos. O segundo período, de ensino primário, vai dessa idade até os 12 anos. Depois, até os 18 anos, ocorrem mais duas fases de três anos, e na segunda o aluno faz escolhas, inclusive profissionais. A escola de Haidian atende alunos dos 12 aos 18 anos, e como a maioria que atende alunos dessa faixa etária, a escola está vinculada a uma universidade, neste caso à faculdade de Geologia da Universidade de Pequim. E ao contrário do imaginado, a escola secundária chinesa não dá prioridade à profissionalização. Depois que completou 15 anos, nos três últimos anos da escola básica, o aluno faz uma opção, entre a área de humanas e a de exatas. Só no último ano é possível escolher além dessas duas áreas por uma formação profissional. Língua chinesa, matemática e inglês são comum para as duas áreas. No entanto, Zhanf Schun Shen, coordenadora educacional da escola, informou que 75% dos alunos escolhem a área de exatas.
É preciso cautela na interpretação dessa porcentagem. A professora de química, Deng Lei, fez dois alertas sobre isso. Primeiro, as lideranças da escola estão quase todas nas classes de humanas. Porém, cada vez mais os que escolheram ciências exatas na escola chinesa procuram estudar o que ela chamou de "literatura fora da área para entender o mundo", assinalando que isso não ocorre com os alunos de humanas. A escola faz um trabalho para incentivar leitura na área contrária da escolha. Já o professor de política da escola, Wu Wan Bing, preferiu reclamar de outra situação: por mais que se peça, ninguém lê jornais entre os alunos, nem na área de humanas, nem na de exatas.
Problema de disciplina entre os alunos? Tanto o interprete, do inglês para o mandarim, como o diretor da escola, não entendiam a pergunta: como indisciplina? Dong apenas respondeu que uma avaliação negativa desse tipo na ficha de um aluno tinha "muita importância", informando que isso muito raramente ocorria. Depois de alertar que não é admitido qualquer exagero repressivo pelos professores (eles são avaliados também por isso pelos alunos e pelos pais) o diretor, um homem calmo em torno de 40 anos, atribuiu esse fato ao papel dos pais na educação dos filhos na China.
Na escola de Haidian, além das duas reuniões semestrais entre pais e professores, cada série tem um comitê de sete pessoas formados por pais para chamar à escola não os alunos mas os pais que não estão presentes na vida escolar dos filhos. Toda classe tem também um pai de aluno responsável. Dong comentou que esse trabalho de aproximação ficou mais fácil depois que a escola implantou (2005) um website em que pais e professores conversam em tempo real.
Ninguém na escola mencionou isso, mas no muro do lado de fora estão os prêmios obtidos pelos alunos em competições de matemática e ciências. Lá estão também as certificações de organizações e auditorias internacionais sobre a qualidade do ensino ministrado naquela escola. Tudo bem transparente, como o alambrado bem baixo que a cerca.
Essa visibilidade deixa bem clara a conexão entre o que se faz neste prédio e o fato de que a China já é, por exemplo, desde a semana passada, a segunda economia que mais exporta no mundo. E deixou para esta semana a entrada no reduzido clube dos que detêm tecnologia suficiente para explorar o espaço.
(Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 12)(Leonardo Trevisan)
quinta-feira, 25 de outubro de 2007
Modelo educacional chinês
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